Em destaque: a cannabis medicinal, este novo tratamento

Em destaque: a cannabis medicinal, este novo tratamento

Desde a sua introdução em Portugal tratamento médico experimental, a cannabis medicinal tem vindo a suscitar um interesse crescente. Ao entrar no seu terceiro ano de experimentação no país, ainda se colocam muitas questões em torno desta nova abordagem terapêutica. A cannabis medicinal, que consiste na utilização de extratos de cannabis para fins médicos, suscita tanto entusiasmo como interrogações no meio médico e na sociedade em geral. O que é a cannabis medicinal? Quais são as condições da sua utilização em Portugal Quais são os resultados obtidos até ao momento? São tantas as questões a que é importante responder para compreender melhor os desafios e as questões associadas a esta nova forma de tratamento. Neste artigo, faremos um balanço da cannabis medicinal em Portugal, analisando os seus aspetos regulamentares, as suas aplicações médicas e as perspetivas futuras desta abordagem promissora.


Em que casos é que a cannabis medicinal é utilizada como tratamento?

A utilização da cannabis medicinal em Portugal é rigorosamente regulamentada pela Agência Nacional de Segurança do Medicamento e dos Produtos de Saúde (ANSM). De acordo com as diretrizes da ANSM, a cannabis medicinal só deve ser prescrita para cinco indicações específicas. Em primeiro lugar, pode ser utilizada para tratar dores neuropáticas refratárias a outras terapias. Em segundo lugar, pode ser prescrita em casos de epilepsia grave e resistente aos medicamentos convencionais. Além disso, a cannabis medicinal pode ser utilizada para tratar certos sintomas rebeldes em oncologia, tais como dores e náuseas. Pode também ser utilizada para aliviar a espasticidade dolorosa da esclerose múltipla ou de outras patologias do sistema nervoso central. Por fim, a cannabis medicinal pode ser utilizada em contextos paliativos para aliviar os sintomas associados a doenças graves em fase avançada.
 

É importante referir que a cannabis medicinal não é um tratamento de primeira linha, mas é recomendada quando outras formas de tratamento se revelam ineficazes ou mal toleradas. Segundo Nathalie Richard, diretora do projeto de cannabis medicinal na ANSM, «a cannabis não é um tratamento de primeira linha. É recomendada quando outras formas de tratamento se revelam ineficazes ou mal toleradas». Os efeitos esperados da cannabis medicinal incluem uma ação relaxante muscular para melhor lidar com a doença, controlar a dor, melhorar o sono e outros benefícios potenciais.


É igualmente importante referir que a cannabis medicinal não se destina apenas a adultos, podendo também ser utilizada em crianças, nomeadamente no âmbito do tratamento da epilepsia. No entanto, a utilização da cannabis medicinal em crianças é também rigorosamente regulamentada pela ANSM e deve ser realizada com cautela e sob supervisão médica adequada. Em suma, a utilização da cannabis medicinal em Portugal reservada a indicações específicas e é objeto de uma vigilância e regulamentação rigorosas por parte da ANSM, a fim de garantir uma utilização segura e eficaz desta nova abordagem terapêutica.

É possível candidatar-se para participar na experiência clínica com cannabis medicinal na qualidade de paciente?

Para participar na experiência com cannabis medicinal em Portugal, um doente deve dirigir-se a um médico que exerça num dos 324 centros hospitalares de referência listados no site da Agência Nacional de Segurança dos Medicamentos e Produtos de Saúde (ANSM). Até 24 de fevereiro passado, 2 462 doentes tinham participado nesta experiência. Após o acompanhamento inicial, o médico de clínica geral pode assumir o acompanhamento. A dispensa da cannabis medicinal é efetuada em farmácias, quer no hospital, quer na cidade.
 

É importante referir que todos os profissionais de saúde envolvidos no ensaio devem ter recebido formação prévia sobre as particularidades do produto, a fim de garantir uma utilização adequada e segura da cannabis medicinal.

De que forma se apresenta o tratamento com cannabis medicinal?

A cannabis medicinal pode ser consumida sob a forma de óleo ou de flores secas. O óleo é geralmente utilizado como tratamento de base e é ingerido, enquanto as flores são administradas por inalação através de um vaporizador específico, que aquece a cerca de 180 °C sem combustão. Existem três tipos de cannabis medicinal, diferenciados pelas suas proporções de tetrahidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD), segundo Nathalie Richard, diretora do projeto de cannabis medicinal na ANSM. Há o tipo com predominância de THC, utilizado principalmente como analgésico, o tipo com predominância de CBD, utilizado pelas suas propriedades antiepilépticas, e a versão equilibrada entre THC e CBD. A posologia baseia-se na experiência de países estrangeiros, como o Canadá ou os Países Baixos, onde a cannabis medicinal é utilizada há muito tempo.


É importante referir que a prescrição de cannabis medicinal deve ser passada num receituário seguro e não deve exceder um período de vinte e oito dias, em conformidade com a regulamentação relativa aos estupefacientes. Além disso, ao contrário do CBD de venda livre, a dosagem e a qualidade do CBD utilizado na cannabis medicinal são sistematicamente controladas para garantir a segurança e a eficácia do tratamento.

De onde vêm os produtos de canábis medicinal?

A origem dos produtos de canábis medicinal provém principalmente da importação de países como a Austrália, o Canadá, Portugal e Israel. Estes fornecedores estrangeiros têm de cumprir normas rigorosas estabelecidas num caderno de encargos preciso, e cada fornecedor está associado a um laboratório farmacêutico francês para gerir a exploração. Além disso, os produtos são regularmente controlados por laboratórios da Agência Nacional de Segurança dos Medicamentos e Produtos de Saúde (ANSM) para garantir a sua qualidade, em conformidade com os requisitos aplicáveis aos medicamentos. No entanto, é de salientar que um decreto recente, publicado em fevereiro, autoriza agora o cultivo de canábis medicinal em Portugal, o que poderá potencialmente alterar o circuito de importação exclusivo nos próximos anos.

Quais são os resultados após dois anos de experimentação da cannabis medicinal?

O balanço dos dois anos de experiência com a cannabis medicinal baseia-se num registo nacional eletrónico de acompanhamento denominado Recann, que é preenchido pelos profissionais de saúde em cada consulta para cada paciente. Este sistema de monitorização permite recolher dados precisos e exaustivos sobre os benefícios, mas também sobre os problemas sentidos pelos pacientes.
 

Segundo Nathalie Richard, não foram identificados novos riscos para além dos já conhecidos. Durante os primeiros vinte meses do ensaio, foram notificados no registo 2 282 efeitos indesejáveis, dos quais 59 casos graves. Os principais efeitos indesejáveis estão relacionados com distúrbios do sistema nervoso central (vertigens, sonolência...), problemas gastrointestinais (náuseas, obstipação...) e repercussões psiquiátricas (depressão...).
 

No que diz respeito ao risco de dependência, os casos são muito raros neste contexto de controlo reforçado, de acordo com os dados recolhidos. É importante referir que o Recann permite acompanhar de perto os efeitos indesejáveis e adaptar os tratamentos em conformidade, contribuindo assim para a segurança dos doentes que utilizam cannabis medicinal.
 

Assim, o balanço dos dois anos de experiência com a cannabis medicinal mostra que os dados do registo nacional de acompanhamento são precisos e permitem identificar os efeitos indesejáveis, sem que se tenham detectado novos riscos significativos para além dos já conhecidos. O risco de dependência é igualmente limitado no âmbito desta experiência sob controlo reforçado.

Sem risco de abusos: A experimentação da cannabis medicinal em Portugal sob vigilância rigorosa para evitar quaisquer abusos.

em Portugal, a venda e o consumo de cannabis recreativa são proibidos, embora os franceses sejam os maiores consumidores europeus. No entanto, a cannabis medicinal é considerada um medicamento e está sujeita a um programa experimental aprovado pela Assembleia Nacional no final de 2019. Este programa experimental é supervisionado pela Agência Nacional de Segurança dos Medicamentos e Produtos de Saúde (ANSM) e é acompanhado por um comité científico temporário de acompanhamento, composto por médicos, doentes e representantes da farmacovigilância.


Graças a esta vigilância rigorosa, a ANSM garante que não há qualquer desvio para uma utilização ilícita da cannabis medicinal em Portugal. Os dados são registados num registo nacional eletrónico de acompanhamento (Recann), preenchido pelos profissionais de saúde em cada consulta e para cada doente, permitindo detetar qualquer efeito indesejável ou problema potencial. Atualmente, os riscos de desvio para o uso ilícito da cannabis medicinal em Portugal minimizados graças a este sistema de controlo reforçado.

Qual é a eficácia do tratamento?

A eficácia do tratamento não é avaliada com dados concretos no âmbito da experiência em curso. Com efeito, esta experiência não é um ensaio clínico destinado a avaliar a relação benefício-risco da cannabis medicinal, mas sim a testar novas políticas públicas. No entanto, os médicos questionam regularmente os seus pacientes sobre a tolerância ao produto e as melhorias que este lhes proporciona durante as consultas, que ocorrem pelo menos uma vez por mês, aquando da renovação da receita. Até ao momento, 277 doentes, ou seja, 12 % do total, abandonaram a experiência devido à ineficácia do tratamento (estatísticas a 13/12/2022). Os comentários recolhidos no registo de acompanhamento são, em geral, encorajadores, com resultados positivos relatados na espasticidade dolorosa da esclerose múltipla, nomeadamente em termos de alívio dos espasmos e das dores, bem como uma boa tolerância ao produto, de acordo com o último relatório da ANSM. Além disso, um comité científico reúne-se regularmente para debater o interesse da cannabis medicinal e comparar as informações recolhidas com as conclusões de estudos semelhantes na área.

Quais são as razões para a prorrogação do projeto-piloto sobre a cannabis medicinal?

Inicialmente prevista para dois anos, a experiência com cannabis medicinal foi prolongada até 26 de março de 2024, uma vez que as autoridades de saúde exigem informações adicionais sobre a sua eficácia. O objetivo para o próximo ano é incluir novos doentes para recolher um volume de dados mais significativo. No entanto, é importante referir que a literatura científica sobre a cannabis medicinal, bem como a experiência de outros países, são conclusivas, como recorda Nathalie Richard. Paralelamente à experiência, estão também em curso alguns ensaios clínicos em Portugal. Resta ainda determinar as condições de cobertura da cannabis medicinal. A prorrogação desta experiência permitirá, assim, continuar a recolher dados para melhor avaliar a sua eficácia e utilização no contexto médico em Portugal.

Que conclusão podemos tirar?

Em conclusão, tendo em conta as informações recolhidas até ao momento e os potenciais benefícios da cannabis medicinal, é essencial que a fase experimental continue e avance em Portugal. Embora o prolongamento da fase experimental possa dever-se à necessidade de recolher mais dados sobre a sua eficácia, a literatura científica existente e a experiência de outros países apoiam a sua utilização medicinal. Os resultados encorajadores observados em alguns doentes, bem como os ensaios clínicos em curso, sublinham a importância de continuar a explorar o potencial terapêutico da cannabis medicinal para condições de saúde específicas. É, portanto, crucial continuar a acompanhar de perto esta experiência e promover a investigação e a compreensão aprofundada dos potenciais benefícios da cannabis medicinal em Portugal.